“Se o estrangeiro, na bela fórmula de Edmond Jabès, é “aquele que te faz acreditar que estejas em casa” (“Qu’est-ce qu’un étranger? – Celui qui te fait croire que tu es chez toi”) (JABES, 1989, p. 112), também é, quando permanece entre nós, aquele cuja mera presença transforma, mesmo imperceptivelmente, a substância dessa “casa”. (Jeanne Marie Gagnebin. 2014. "Como viver junto? Uma comunidade de estrangeiros." Redobra, no. 14, ano 5: 211. Universidade Federal da Bahia.)
Em seu texto Como viver junto? Uma comunidade de estrangeiros, a filósofa Jeanne Marie Gagnebin apoia-se nos escritos de Georg Simmel, Edmond Jabès e Claude Levi-Strauss para endereçar a questão que a 27ª Bienal de Arte de São Paulo trazia em seu título. Tomado emprestado do livro Como viver junto de Roland Barthes, uma coletânea do curso oferecido no Collège de France, entre 1976 e 1977, em que o autor abordava uma série de tópicos para pensar sobre uma vida não fascista, a bienal curada por Lisete Lagnado, em 2006, discutia uma questão cada vez mais premente no mundo. Gagnebin apresentou seus escritos num dos seminários organizados pela bienal e eles pareceram-me precisos para dissertar sobre o projeto Como olhar junto, de Luiza Baldan, que acontece do encontro de uma comunidade que caminhou “com as suas casas às costas em carroças de boi”1 e uma estrangeira que reconheceu na Cova do Vapor traços do recanto mais especial de sua vida, Cabo Frio, no Rio de Janeiro.
No artigo, a filósofa explora a ideia de convivência em uma comunidade marcada pela diversidade e pela alteridade, focando no conceito de "estrangeiro" como figura central para pensar as relações humanas, pois desafia as noções tradicionais de pertencimento e identidade. A autora argumenta que a convivência não deve ser pautada pela assimilação ou pela anulação das diferenças, mas sim pela construção de um espaço onde a singularidade de cada indivíduo seja reconhecida e valorizada. Ela propõe que uma "comunidade de estrangeiros" se sustenta no respeito mútuo, na escuta e na abertura ao diálogo, criando possibilidades de interação que não eliminam as tensões, mas as transformam em força criativa.
Luiza Baldan escolheu não ver a Cova do Vapor, mas olhar para este novo território de forma compartilhada. Como nos lembra Márcia Tiburi, “ver é reto, olhar é sinuoso. Ver é sintético, olhar é analítico. Ver é imediato, olhar é mediado. A imediaticidade do ver torna-o um evento objetivo”2. Não seria possível estender um olhar forasteiro, colonialista, a este lugar. Não fazia sentido representar em imagens a paisagem quase familiar. Portanto, engendrou uma dinâmica de trabalho relacional que levava em consideração a comunidade como uma rede dinâmica e fluída, onde o viver junto era um exercício constante de negociação e acolhimento. Encontros semanais na Biblioteca do Vapor com residentes que enfrentaram - e que ainda podem vir a enfrentar - o desafio de salvar suas casas do avanço do mar, e que vivem na Cova do Vapor para além do veraneio, foram descortinando histórias, fatos e memórias. Fotos, receitas de comida, canções e causos foram partilhados entre artista e moradores que têm em comum o deslocamento. A mudança constante de casa marcou a infância e a juventude de Luiza e a vida adulta tem sido passada de país em país. Os relatos dos moradores da Cova do Vapor ressoaram profundamente em sua vida migrante: metaforicamente carregar a casa nas costas, lutar para fazer do novo lugar, um lar.
A linguagem do projeto foi sendo elaborada à medida em que os laços afetivos foram se estabelecendo, e a narrativa foi construindo uma comunhão de olhares recíprocos. O livro, as fotos, a instalação e qualquer outro fruto desta rica interação e relação jamais darão conta do impacto deste projeto nas vidas dos participantes, mas eles são uma entrada poderosa nesta comunidade criada, nestas histórias compartilhadas. Mas a arte não seria exatamente isso? Um convite para acessarmos algo muitas vezes intangível do ponto de vista racional, porém que nos mobiliza psiquicamente? A poética de Luiza Baldan é quase sempre esta apreensão do inefável, daquilo que escapa. Como olhar junto constitui-se como um projeto essencial num tempo de recrudescimento de fronteiras e de discursos de ódio e de negacionismo de todos os tipos. Quase 20 anos após a escrita do texto de Jeanne Marie Gagnebin, parece que mais do que nunca precisamos pensar em como olhar junto, em como viver junto, pois nós seres humanos somos nada mais do que uma comunidade de estrangeiros no planeta terra.
Cristiana Tejo
Lisboa, Janeiro de 2025
1 Acesso em 13 de janeiro: https://luizabaldan.framer.website/comoolharjunto.
2 Acesso em 20 de dezembro: http://www.escolaprojeto21.com.br/site/_09_nanico/_imgs/_20131116/marcia_tiburi.pdf
“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo”
Caetano Veloso em Oração ao Tempo
Qualquer rota pré-traçada rumo ao Desconhecido, há nela mesma o pressuposto do risco. Decidir-ir infinitivos de verbos que lançam o sujeito numa trajetória insidiosa. O desejo do mar. Por quais caminhos? PERABÉ. Uma narrativa contemporânea de Luiza Baldan.
*
Para quem acostumou o corpo à ideia de infinito jamais saberia sobreviver em São Paulo - cidade demasiadamente concreta, densa, finita, apesar de sua grandiosidade -, sem encontrar nela mesma uma fuga. Sair em busca do mar seria, então, alguma espécie de redenção, de retomada, de reinvenção. Redescobertas de todas as ordens, inclusive da própria ideia de “redescobrir”.
*
O que seria do caminho sem o andarilho? Seria vestígio de desaparecimento. O que seria o caminhante sem trilha? Um seguir sem rumo. Uma ode à displicência?
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De São Paulo à cidade de Santos. As trajetórias tornaram-se por demais perigosas. Em cada passo, a colisão entre presentes e passados. Desmoronamentos e desejos de construir à sombra daquilo quase apagado. Marcos da vida
pessoal se fundem às histórias da pequenina cidade. Como se o Tempo houvesse parado para que essas existências se encontrassem.
*
Esse mesmo Tempo que estanca, também se aflige sem saber a quem se dedicar: àquela alma solitária, aos anseios de um pequeno povoado, ao silêncio da vida natural, ao burburinho das Cidades colossais.
Assim, de aparente suave, me aparece e cresce aquele som silêncio, vindo de além, de um aqui distante, e das ruínas desse mar também. Ele esconde, em eco centro (e na quietude falsa onde ainda ondula o que já se foi) a dura e forte falta de um sentir. Só meu e limpo, e também seguro, constante assim: lá bem acima, o bem mais profundo, vibrando em mim. Logo, se é pulsante e surda a mansidão fingida onde eu sempre paro, se em vez do olhar é de outro sentido o lugar que eu falo, e se estilhaçam sempre, em fundo perdido e claro, os lugares palavras que eu vejo e guardo, não há o que houve, nem o que marca, nem o que eu sinto (e até invento). Fiquemos, então parados, na firme certeza desse maior ir sempre, sabendo, que sempre indo, vamos também mais, ficando sempre.
Assim: espraiados em ser bem maior do que abarcamos, (e mais que impossíveis nesse estado, que é um estar fixo em muito largo movimento) sentindo em todo o instante e de repente, que até nos alucina, certa e incontornável componente: perpétua e bem suprema, essa sublime, a impermanência. E será na repetição estática de um qualquer objeto, ambiente ou canto, lugar inerte na vibração morna dessa existência que eu bem pressinto, de apenas parte a querer ser todo e ferozmente, que encontrarei o vazio espaço que ainda sou e vivo sempre.
E assim projeto: reflexo de espelho aberto, do que apenas e só existe, decantado em notas breves de sentimento. Um escasso e fraco gesto como aliado, na união perversa e fria desse vazio, com um passado. A fronteira é uma história falsa e apenas nossa que o lugar ignora. O silêncio o senhor perene que tudo habita: cresce, se transforma e parte, sem que assim termine. Denominador prolífico em que nos apoiamos num contraído vivo, ele nos mostra a irredutível força calma detrás de tudo, a miséria bruta de projeções e leituras mil, a ilusão pretensiosa de querer ser só o indivíduo. É também através da ausência constante que habita esse silêncio vasto – e a que Luiza Baldan nos sujeita irremediávelmente, sem dureza, complacência ou sedução –, que somos confrontados com a incontornável permeabilidade da existência, com a fragilidade das histórias que para nós inventamos e percorremos, para sempre condenados a um suave mas imparável autoexílio de nós mesmos. Aqui encontramos momentos de um percurso feito pela artista ao longo de uma fronteira, através de cidades que jazem no litoral português, esquecidas entre a terra e o mar, marcos imóveis e caducos mergulhados numa atmosfera trespassada pelo passar do tempo, nostalgia temperada pelo constante silêncio, sólido, aparente. Ao sublinhar a força adormecida da presença, através da ausência – constante duelo de vida e morte em realidade que é apenas palco, ou arte –, ao revelar do presente nos resquícios nele ainda cravejados de um passado, ao mostrar um tempo sem tempo que é também um não lugar, Luiza Baldan nos urge, em suave mas forte paisagem, a um alargamento interior que descarta categorias de identificação ou raiz, afinidade ou história, até persona. Antes nos remete delicada mas firmemente para esse lugar transfronteiriço em que a interioridade e o exterior, o presente e o passado, mesmo o tempo e o espaço, serão meros conceitos organizacionais, representantes de uma artificialidade boçal e hoje caduca para o sujeito. E com maior razão, para o criador, artista. O silêncio/espaço que habita a obra desta artista quer ser sempre integral, fecundo, renascido, e não apenas palco, elemento, volume ou ambiente.
Assim, ele exige de nós: entendimento, largura e ação inteiras. E em resposta, cúmplice.
‘Image is far more than a simple cross-section taken of the world of visible elements. It is a sought after imprint, a trail, a visual drag of time, but also of additional time— […] — that it cannot, as an art of memory, prevent forming there.’[1]
‘There are many things in fiction that are not uncanny that would be if they took place in real life, and in fiction, there are many ways of evoking uncanny effects that do not exist in life.’[2]
Do aparelho de jantar que meus pais ganharam de presente de casamento, resta apenas uma tacinha de café no meu apartamento da rua Charlot. Ela parece menor a cada dia, como se os objetos da nossa infância fossem diminuindo conforme vamos envelhecendo. Não faço ideia de onde foram parar as outras do jogo, sem dúvida abandonadas em lugares que os membros da família já não habitam, dividindo o armário com canecas americanas, sobreviventes de um mercado de pulgas ou de uma lojinha de museu, sobras de histórias de amor ou de antigos roommates.
Parte submersa do nosso iceberg familiar, esses objetos são parte de uma sequência de imagens que é constantemente atualizada por novos objetos que nos arrebatam e por outros tantos que nos afeiçoamos involuntariamente. Como o copo de leite do filme Suspicion, de Hitchcock, certas imagens flutuam sobre nós e impregnam os ambientes. Independente da história real, se transformam em volumes, imagens-objetos ou imagens/tempo. São literalmente desproporcionais.
As imagens de Baldan são assim: imagens-objetos e imagens-tempo, parte de sequências de vestígios que a artista recolhe durante suas viagens e residências em diferentes partes do mundo.
Esta é a razão pela qual a convidei para passar um mês no meu apartamento que está prestes a ser vendido. Além dos meus, há traços de todos aqueles que viveram ali, sejam as visitas curtas ou os inquilinos duradouros. Quero que Baldan registre sua própria experiência antes que comece a do novo proprietário, modificando e se deixando modificar pelo lugar, representando o desfecho, a minha separação com a casa e a sua história.
O acaso – ou alguns podem chamar destino – fez com que este projeto se desenvolvesse não só na casa, mas em uma série de outros lugares. O furto de alguns pertences e equipamentos profissionais da artista no apartamento da rua Charlot no dia da sua chegada a Paris, a obrigou a se reposicionar e a trabalhar para além da violência da intrusão.
A exposição Build Up, apresentada na MdM Gallery, reúne obras articuladas em torno desta singular experiência de residência, em sua descontinuidade e deslocamentos. Algumas poucas fotografias anteriores também estão expostas, como a dos balões presos em galhos de árvore, que é a última imagem tirada em Nova York, um dia antes da viagem de Baldan a Paris.
Esta imagem foi ampliada e ocupa uma parede inteira da galeria, proporcionando uma abertura na abertura, ao longo da vitrine principal. Como tantas vezes na obra de Baldan, ela carrega uma ambiguidade: a perspectiva é interrompida pelos balões hipnotizantes que estão presos no ponto de fuga, impedindo a luz de escapar.
Alguma coisa aconteceu ou vai acontecer a qualquer momento, mas não sabemos quando ou como a ação se dará. O texto escrito pela artista passa em uma tela negra disposta no nível do chão, como se tivesse sido destacado das imagens penduras na parede. Não há distância suficiente para serem apreendidos juntos; as possíveis combinações são infinitas. O fio da narrativa foi cortado; o Estranho emerge.
Este efeito perturbador é acentuado pelas distorções de escala – uma árvore ou um prédio estão impressos no mesmo formato da foto da tacinha de café herdada dos meus pais –, mas também por composições com transparências e reflexos. Os contrastes fortes coexistem, colidindo entre e dentro das próprias imagens. Por exemplo, o piano da minha infância reflete uma porta aberta do armário da cozinha, como se o verniz preto fosse um testemunho tardio, uma Polaroid.
Esta acumulação díspar gradualmente permeia a sequência inteira, construindo uma tensão, como no cinema as trilhas sonoras chamadas build up mantêm o espectador em suspense até que as luzes se acendam e cada um retome o curso de suas vidas, sutilmente tomados por imagens e novas emoções.
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[1] Georges Didi-Huberman, ‘The Image Burns,’ Thinking through images, centred around the work of Georges Didi-Huberman, texts collected by Laurent Zimermann, Nantes, Éditions Cécile Défaut, 2006, p. 11-52, p. 51. [2] Sigmund Freud, ‘Uncanny,’ (Kindle), Chapter 3, Thriller Editions, 2013
Por detrás da sinuosa escada do MAM, há um equipamento que projeta sobre a parede imagens em tempo real do lago existente na lateral do museu. Assim, dentro do MAM, é possível ver descortinar um dos poucos pontos cegos produzidos pela arquitetura de Affonso Reidy. Se a simultaneidade das imagens projetadas aponta para um certo realismo, poucos minutos de observação do experimento bastam para se perceber que a intenção da artista foi muito mais ambiciosa do que o desejo de uma mera reprodução da realidade.
A imagem posta na parede é enquadrada, atendo-se aos limites impostos pela autora, criando um efeito de formatação, recurso que expõe sua artificialidade. Impossível classificá-la na ingênua arrogância daqueles que anseiam falar da realidade na sua naturalidade, sentimento que inspiram os badalados reality shows. Sem recorrer a um anteparo para a projeção (uma tela, uma falsa parede), sua existência está constantemente em cheque; muitos visitantes desatentos do museu passam pelo local cegos para a experiência visual. Não é culpa deles; Baldan não facilitou para o público. Ao expor um ponto cego do jardim projetado por Burle Marx, acabou incorporando a questão da cegueira ao seu próprio trabalho. Acaso? Pouco provável. Um fato é decisivo para esta apresentação: o video produzido nunca é gravado. Infindáveis momentos se dirigem ao esquecimento no instante em que nascem. Instante. É curioso perceber que só é possível nomear este experimento de video na frieza das classificações: se possui movimento, é video; se é uma imagem estática, é fotografia. Sem gravação, sem a possibilidade de retorno, de exibição posterior, sem o áudio ambiente, preso num instante que projeta um frágil futuro e acena com um passado apenas imaginado, nunca um video foi tão fotográfico como neste caso. Cada frame projetado foi um instante exibido e depois perdido para a eternidade, como uma fotografia que eterniza uma cena momentânea para lançar, em seguida, todo o resto da realidade na obscuridade. Assim, apesar das sequências ininterruptas das imagens, o que está em jogo nesta produção é unicamente o instante, aquele momento surgido e morto imediatamente. O que nos resta deste acontecimento é uma vivência assombrosa do tempo, e não do movimento. E o assombro vem da provocação de um instante que é eterno e perecível ao mesmo tempo.
A própria materialidade da projeção determina esta concepção. Há um jogo dialético entre luz e visão inerente à instalação, como bem observou Virgínia Mota: quanto maior a luminosidade do ambiente, pior é a visão do video; com o crepúsculo do dia, a percepção da projeção melhora, porém a paisagem filmada é atacada pelo lusco-fusco da hora. Da cegueira dos visitantes à invisibilidade do espaço encoberto pelo concreto, este ensaio visual proposto por Baldan nos leva a pensar para além dos vazios esquecidos ou das lacunas não preenchidas. Não seria o caso de alertar cada espectador da presença da projeção nem, tampouco, de reivindicar a demolição do muro que esconde o lago. A artista não quer produzir um manifesto, reclamar uma lista de exigências, criar uma pauta de reflexões para os espectadores. Este entendimento seria a melhor forma de sufocar a potência do seu trabalho. Este descompasso entre a existência da projeção e a invisibilidade da paisagem, da cegueira do espectador e o desconhecimento do lago é justamente a força do trabalho exposto. É só a partir desta possibilidade de fracasso, da rejeição de aplicar um método eficiente de visibilidade total que nos deparamos com a urgência do não-lugar para a realização da própria arquitetura. A percepção desta dualidade é a mesma encontrada entre o silêncio e o som, o espaço em branco no texto e a palavra, a ignorância e o pensamento, enfim, entre a própria realização e o seu iminente fracasso. O vazio, a cegueira, a invisibilidade não é um estado a ser evitado ou exterminado, mas, ao contrário, a ser garantido e valorizado como condição de possibilidade para a existência em si. Experimento, projeto, trabalho; nunca uma obra de arte. A artista arrisca-se a não recorrer a segurança das obras de arte. Diferentemente de uma tradicional exposição de fotografia ou mesmo uma vídeo-instalação, Baldan abre mão da estabilidade que o suporte sensível de uma obra de arte poderia fornecer. Projetor, parede e câmera não chegam a constituir, nem mesmo sustentar, verdadeiramente a realização desta empreitada. Este modelo híbrido entre vídeo e fotografia só adquire contornos de uma obra no fugaz gesto de observação de um espectador incidente. É apenas a partir da visada de um visitante que a autora garante a existência de sua obra. A evanescência de seu trabalho que, por um lado, acena com o risco de um fracasso artístico (uma escultura pode ser ignorada, mas estará sempre disponível para fruição futura graças a sua existência em mármore, por exemplo), oferece, por outro lado, uma força rara nos dias atuais. Sua fragilidade assegura para quem a observa uma quebra no fluxo do cotidiano. Se uma grande obra é capaz de capturar nossa atenção e nos lançar em uma experiência estética profunda, Baldan proporciona uma inquietude, não a da efetividade da obra, mas alicerçada no não-acontecimento.
As imagens projetadas são repletas de mesmice, quietude, monotonia, previsibilidade. Quase sempre nada acontece. Numa época de frenesi, do espetáculo constante, do acontecimento nas mais ínfimas ocorrências, a autora nos oferece um tédio contemplativo. Acontecimentos só surgirão por puro acaso, à revelia da normalidade esperada. De onde vem a força citada se a experiência estética provocada parece estar em desalinho com os valores vigentes de nossa época? Mais uma vez o desacordo criado por Luiza Baldan comporta uma relação de ruptura com a vida no seu sentido ordinário. Sem qualquer razão de ser, uma pessoa pode se recusar a prosseguir a visita ao museu e perder voluntariamente seu tempo nesta relação estética com a frágil obra. Ocorre assim uma cisão inesperada entre a expectativa do visitante e sua própria vida cotidiana. A obra ali projetada não é bela nem útil. Por isso mesmo transforma a generosidade do espectador em uma inutilidade. O que se cria a partir disso é inesperado, injustificado, por isso violento, brutal, revolucionário. Num tempo em que parece que todas as revoluções fracassaram e que cada indignação coletiva se transforma imediatamente em gestos de pura bravata, talvez uma experiência estética ainda seja capaz de comportar um ato revolucionário. Tudo isso pode se mostrar insuficiente, mas, num mundo em que o niilismo deixou de ser uma ameaça temida para se transfigurar no verdadeiro modo de ser contemporâneo, é digno de exortação cada brecha de esperança despontada, mesmo que esta esperança nasça sob signo do desespero.
Muitas das fotografias de Luiza Baldan deixam de lado a presença humana. Desde o inicio de sua trajetória é possível detectar tal ausência. Mas não é disso que se trata agora. Ou melhor, tal ausência somente chama atenção para pronunciar a ausência de uma presença. Anteriormente Baldan havia feito uma residência de um mês em um ecobairro chamado “Península”, na Barra da Tijuca (bairro do Rio de Janeiro); se parte destas obras eram frutos de uma experiência em um local no qual as pessoas buscavam um suposto isolamento do mundo em favor de uma ilusória segurança, Luiza nos entregava o vazio e a solidão que permeiam o fundo dessa experiência sintomática da época em que vivemos em sua face crepuscular; aquela da perda dos vínculos, da capacidade de “viver junto”. A artificialidade que emanava daquelas fotos persiste nestas hoje apresentadas. Tal repetição mostra que, a despeito do lugar onde esteja, existe um universo de questões investigado pela artista, qual seja, o da solidão, o da dificuldade de criar vínculos, aquele que mostra a resistência dos lugares enquanto espaços fecundos para o encontro. Feitas em Portugal, em um lugar chamado “Península de Tróia”, tal série de fotos sublinha a promessa, sempre falha, de reproduzir uma cidade ideal dentro de uma cidade. Seja na Barra da Tijuca ou num balneário desértico de uma cidade europeia, a visualidade de Baldan soa a mesma; novamente nos vemos frente a uma espécie de futuro latente em busca de um presente por chegar. O nome disso pode ser urbanização, ou uma busca do lugar para o encontro, para a proximidade. Algum calor digno da expressão “viver junto”. A persistência na “questão” do vazio retorna como presença. Seu olhar sobre os intervalos de ausências soa atravessado por sentidos, polissêmico, em meio a um mundo sedento por presença e completudes. Seu píer para lugar nenhum é uma imagem paradigmática daquilo que deveria reger a relação com a vida, ou seja, a busca pela surpresa, o inesperado, e não pelo seguro e já conhecido. Um caminho que é puro devir. As luminárias inusitadas iluminam este caminho ao anoitecer, as placas, aparentemente isoladas, nos dão a direção em meio ao nada. A obra de Luiza Baldan se revela, por fim, repleta de uma poesia própria que nos instiga e faz querer caminhar adiante, mesmo que sem bússola. Poucas companhias são mais fiéis e felizes do que esta.
Guilherme Bueno (2012)
Luiza Baldan, São Casas
... e então o metrô para. Nesse instante alguém se vira e olha de passagem em direção à câmera. E mais outro, todos provavelmente alimentados pela curiosidade em saber o que ela fazia ali, o que pretendia registrar. Mas também ansiosos em, ao colocar-se fortuitamente na sua mira, passarem a pertencer àquele filme, sabendo que se um dia o vissem, reconhecer-se-iam ali espelhados, ingressando assim em um outro tempo; tornando-se parte do que talvez fosse uma das últimas possibilidades legítimas de monumento na modernidade – o cinema.
Essa descrição da cena final de um pequeno filme de 1905 feito no metrô de Nova York por Billy Bitzer ajudanos a pensar nos trabalhos de Luiza Baldan aqui apresentados. Se deixarmos de lado tanto diferenças
substanciais (o deslumbre anterior com o ato de registro como gesto simultaneamente de perenidade e afirmação do presente) quanto contingentes (a presença humana no primeiro, contrastada com a eventual ausência de alguns trabalhos da artista), duas questões ressoam comuns: a vivência urbana patente e, sobretudo, o que se poderia chamar de um protagonismo da temporalidade da imagem. Explicando isso melhor, trata-se daquilo que parece inerente às imagens de estabelecer para si um tempo próprio, que, para usar um termo hoje de domínio (e lugar) comum, “congela” tudo: a luz, a paisagem, o mundo. Daí o sentimento ambíguo de imprecisão em seus trabalhos – a nitidez flagrante, ora deslumbrante visualmente, ora seca em sua austeridade formal, acentua nossa incapacidade de determinar o quando, onde, como e por quê normalmente exigidos de uma fotografia ou de um filme. Aqui, portanto, ousaria dizer que tanto faz se as fotos são desabitadas ou não, pois em todos os casos, o que se explicita é o limiar da autonomia da imagem.
Falar em autonomia da imagem diante de trabalhos que nos defrontam ao universo urbano soa, no mínimo,
contraditório. Mas talvez seja este o ponto que nos leva a acentuar tal condição limiar. Afinal, por um lado, há,
independente do tema abordado, uma espécie de “encenação”, melhor dizendo, de dissecação de todos os
códigos componentes da imagem: o cálculo de um determinado gesto daquele (ou daquilo) que posa, oferecendo e repetindo um certo modo segundo o qual deseja ser registrado; a argúcia em perceber como a captação da luz, além de comentar a “atmosfera” de um lugar, preenche-lhe de volume e espaço. Por outro, o de nos deixar claro que, se tudo pode parecer igual, se todo lugar ou todo tema se igualam, isto só se dá até certo ponto, pois mesmo emoldurados em várias constantes e até pasteurizações detectadas pela artista, todos almejam uma singularidade, ou, se quisermos, uma identidade. Ademais, torna-se impossível permanecermos indiferentes a estes lugares supostamente indeterminados que, na verdade, são onde vivemos e convivemos, apercebamo-nos disso ou não.
Quando deparamos com suas videoinstalações, a alternância entre autonomia plena e “encenação” acentuam a fluência da linha divisória que as separa apenas circunstancialmente. Afinal de contas, a ideia mesma de encenação implica a presença de alguém que seja o destinatário dela. O espectador habita as imagens (o espectador como um “ator involuntário”), que por sua vez, também se auto-encenam onde elas se projetam. Em outras palavras, ela conferem uma outra identidade, mesmo que provisória, fundam um lugar efêmero, transpõem-se de um local (de origem) para outro (a sala onde são exibidas), instituindo neste último uma outra configuração para além daquela original. Espaço – categoria abstrata – é transformada em lugar, ou seja, dotado de uma significação.
Para finalizar a questão da temporalidade da imagem, volto a comparação do filme de 1905 com uma das várias fotos feitas pela artista no Conjunto do Pedregulho em 2009. Na cena final do metrô, em meio a suposta indiferença dos “personagens”, quando percebida a câmera, alguns se corrigem ou controlam suas atitudes, pois sentem o quanto lhes custaria ser condenados a eternidade de forma inapropriada. Nas fotos do Pedregulho, o fotografado calcula seu gesto, escolhe a roupa que melhor lhe corresponde, melhor lhe traduz, assim como os objetos de que se circunda. Para além da lógica do retrato, com sua tarefa de querer dizer de quem se trata e como ele pretende ser visto, coloca-se na imagem tudo o que o tempo poderia devorar, mas que sentiria salvaguardado sob o manto protetor da imagem. Antecipando-se a uma futura arqueologia do século XXI, entende-se aquela imagem como um statement para a posteridade e um antídoto à amnésia. Arcádia de bites.


























